8. MUNDO 16.10.13

PERONISTAS EM GUERRA
s vsperas das eleies legislativas, Cristina Kirchner se afasta do poder para fazer uma cirurgia e adversrios se aproveitam da situao para travar nova batalha contra a presidenta
Ana Carolina Nunes

Um dia antes de a presidenta da Argentina, Cristina Kirchner, fazer uma cirurgia para drenar um hematoma no crnio, lderes da oposio declararam que tudo poderia ser apenas um jogo de cena. Afinal, disseram eles, Cristina est perto de sofrer uma derrota avassaladora nas eleies legislativas de 27 de outubro, e fugir dos holofotes seria bastante apropriado. Segundo essa teoria conspiratria, simular um problema de sade sensibilizaria uma boa parte do eleitorado. Por mais absurdo que declaraes assim possam parecer  Cristina foi mesmo obrigada a fazer a cirurgia depois de sofrer um leve traumatismo craniano provocado por uma queda , elas revelam como a guerra poltica no pas est acirrada. Se no se respeita nem sequer o estado de sade de um adversrio das urnas,  de se imaginar como ser pesada a disputa nos prximos dias. Para Cristina, o insucesso agora anularia suas chances de mudar a Constituio para almejar um terceiro mandato. A eleio presidencial  em 2015, mas o pleito de outubro poder marcar o fim da era Kirchner no pas.

O surpreendente no jogo poltico da Argentina  a batalha interna entre os prprios peronistas. Cristina julga-se a herdeira natural da doutrina. Seu principal adversrio, o prefeito da cidade de Tigre, Sergio Massa, considera-se a nica voz capaz de renov-la. Governadores de ideologias diversas e alianas variadas acusam ambos de trarem os ideais do peronismo. No interior do pas, caudilhos de pequenas regies articulam movimentos que defendem o surgimento de uma terceira via, no ligada a Cristina ou Massa. No peronismo, cabem polticos de esquerda e de direita, radicais ou no, e o fator que os une  a busca incessante para ganhar e conservar o poder. Desde que Juan Domingo Pern fundou a corrente que carrega seu nome, h 67 anos, o peronismo governou o pas por mais da metade do tempo (so 34 anos no comando). Trata-se de uma fora aparentemente indestrutvel. Os ltimos dois presidentes argentinos no peronistas nem sequer completaram seus mandatos. Ral Alfonsn, da Unio Cvica Radical, renunciou em 1989 e, Fernando de La Ra, do mesmo partido, em 2001. 

 Peronistas de carteirinha, Cristina e Massa tm vises opostas sobre uma questo primordial: a presena do Estado na economia. Cristina no s expropriou empresas estrangeiras como  a favor da nacionalizao de setores estratgicos (leia quadro). Massa  visto como um liberal moderado e fez carreira poltica defendendo a privatizao de empresas pblicas deficitrias. Segundo especialistas, ele  atualmente o nome mais forte para as eleies presidenciais de 2015. Hoje o grupo ligado aos Kirchner est em decadncia e no possui uma liderana, diz Ricardo Sennes, coordenador do Instituto de Relaes Internacionais da Universidade de So Paulo (USP). Em seus discursos, Massa bate na tecla do fomento dos investimentos e sabe que assim fere Cristina em seu ponto mais fraco. Nos dois mandatos da presidenta, inmeras empresas estrangeiras deixaram o pas, incomodadas com a instabilidade econmica e temerosas de uma possvel onda de estatizao.

No fundo, o que os peronistas procuram  um novo caudilho, com carisma e autoridade suficientes para lider-los. Por isso mesmo, a disputa poltica tende a ser cada vez mais encarniada. Em 2015, vai ser uma verdadeira guerra, diz o professor Pedro Costa Jnior, especialista em relaes internacionais. H muito tempo o pas no testemunhava uma disputa to claramente polarizada, desta vez entre os que so a favor e os que so contra o kirchnerismo. Na semana passada, enquanto Cristina convalescia em um hospital, o vice-presidente Amado Boudou assumiu o comando do pas. Figura polmica, conhecido como o vice roqueiro, ele foi chamado s pressas para voltar a Buenos Aires, j que se divertia em passeios de moto pelo interior do pas com sua Harley Davidson. Envolvido em diversas denncias de corrupo, Boudou provavelmente estar na presidncia durante as prximas eleies legislativas. Resta saber se isso  bom ou ruim para Cristina.

